segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"A Minha Dor" de Florbela Espanca



                                            A você

          A minha Dor é um convento ideal
          Cheio de claustros, sombras, arcarias,
          Aonde a pedra em convulsões sombrias
          Tem linhas dum requinte escultural.
   
   5    Os sinos têm dobres de agonias
          Ao gemer, comovidos, o seu mal…
          E todos têm sons de funeral
          Ao bater horas, no correr dos dias…
         
           A minha Dor é um convento. Há lírios
   10   Dum roxo macerado de martírios,
          Tão belos como nunca os viu alguém!
         
          Nesse triste convento aonde eu moro,
          Noites e dias rezo e grito e choro,
          E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…


         O endereço “a você” pode ser entendido com um desabafo ou uma carta onde exprime a sua tristeza. Neste poema estão presentes símbolos que carregam o ambiente fúnebre e a dor está associada a um convento.
            Começa por descrever a sua dor como um convento (sendo um convento um lugar de solidão, afastado do mundo), mas apesar de sombrio confessa que o convento tem algum “requinte” (v.4).
            Na segunda quadra, Florbela diz que o único barulho que ouve é os sinos que gemem em tons de funeral (v.7). “Ao bater horas, no correr dos dias” Florbela afirma que os sinos tocam todos os dias e cada toque é como fosse um passo para a morte, cada vez está mais perto dela.
            No primeiro terceto, Florbela volta a reforçar a ideia que a sua tristeza é como a de um convento e acha belos os lírios roxos (v.9 e 10) O roxo é considerado uma cor triste, na religião cristã é usada nos ofícios e missas pelos mortos, significa penitência, aflição e melancolia que carateriza bem a personalidade de Florbela onde tudo é sofrimento.
            Na última estrofe confessa que está sozinha e apesar de rezar, gritar, e chorar (v.13), ninguém vem em seu socorro.
            Em todo o poema a palavra “convento” é repetida três vezes (v.1, 9 e 12). Existe aqui uma conotação, o convento é, de facto, o mundo em que vivia onde tudo era dor e que ninguém, apesar dos apelos que fazia, lhe respondia.
            Quando afirma que reza, grita e chora (v.13), estas atitudes podem ser vistas como atitudes de loucura que provavelmente podem levar à morte

Ricardo Amorim

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