segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"Fanatismo" de Florbela Espanca

   
          Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
          Meus olhos andam cegos de te ver!
          Não és sequer razão de meu viver,
          Pois que tu és já toda a minha vida!

    5    Não vejo nada assim enlouquecida...
          Passo no mundo, meu Amor, a ler
          No misterioso livro do teu ser
          A mesma história tantas vezes lida!
         
          Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
   10   Quando me dizem isto, toda a graça
          Duma boca divina fala em mim!

          E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
          "Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
          Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
        


            Fanatismo é um estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema. Normalmente as pessoas que sofrem deste estado psicológico possuem carateristicas como agressividade, ódio, procura da morte e intenso individualismo.
            Na primeira quadra nota-se que Florbela sente falta do ser que ama e o fato de não o ver é comparado a uma cegueira (v.2). Este verso pode também ser entendido como uma forma de Florbela não querer ver mais nada para além da pessoa a que se está a dirigir. O amor que ela sente é tão forte que como afirmam os versos três e quatro, “não és sequer razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida!” o amor é comparado com a sua própria vida.
            Na segunda estrofe vemos que, junto com a dor presente na estrofe 1, o desalento diante das situações que não mudam e que é capaz de a levar à loucura. A capacidade psicológica que ela não tem de se mudar, vê a sua vida como uma simples passagem pelo Mundo (v.6). É nesta quadra que se nota principalmente o enlaço entre o amor e a dor, ela diz-se enlouquecida mas ama-o.
             Florbela firma no primeiro terceto que quando a vida parece não ter mais valor, o otimismo emerge do nada, como que por uma força divina, trazendo consigo o “Amor” em sua maior intensidade.
            O poema acaba reforçando a ideia que a pessoa que ama é a sua vida e é mesmo comparada com Deus, ou seja, deve ser admirada por todos.

Ricardo Amorim

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