domingo, 19 de fevereiro de 2012


Eu

          Eu sou a que no mundo anda perdida,
          Eu sou a que na vida não tem norte,
          Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
          Sou a crucificada... a dolorida...

    5    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
          E que o destino, amargo, triste e forte,
          Impele brutalmente para a morte!
          Alma de luto sempre incompreendida!

          Sou aquela que passa e ninguém vê...
    10  Sou a que chamam triste sem o ser...
          Sou a que chora sem saber porquê...

          Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
          Alguém que veio ao mundo pra me ver
          E que nunca na vida me encontrou!

           
             Este soneto é muito autobiográfico, nele todo está contido a dor e a incompreensão que Florbela sofria e não percebia. A temática abordada nos seus poemas é principalmente a amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: solidão, tristeza, saudade, sedução e desejo da morte.
            Florbela apresenta-se como uma mulher desnorteada, sem rumo na vida, usa os adjetivos “crucificada” e “dolorida” (v.4) para se caraterizar psicologicamente. Neste contexto, crucificada pode querer-nos transmitir que Florbela não era compreendida pelos maridos que teve e “dolorida” pela tristeza que trazia dentro de si.
            Na segunda quadra nota-se um sentimento de predestinação e o sentimento que a culpa da sua morte é do destino (v.6). A predestinação é uma crença em que cada acontecimento é determinado por Deus, então Deus é que a leva à morte. Ainda nesta quadra (v.8), Florbela compreendia bem que nem toda a gente a aceitava e a entendia, talvez  foi uns dos factores que a fez desenvolver os seus poemas.
            No primeiro terceto, destaca a falta de atenção e a descriminação que sofria por toda a gente pensar que ela estava sempre triste e confessa também não saber o porquê de muitas vezes chorar (v.11), simplesmente lhe apetecia.
O último terceto carateriza bem uma parte da vida de Florbela, a parte dos amores insertos. Ela diz que supostamente alguém veio ao mundo para a ver mas no fundo esse alguém nunca a encontrou. Teve uma vida com vários amores mas nenhum foi certo.
ricardo amorim

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